OPINIÃO: As lições econômicas da greve dos caminhoneiros

Amapá, que é abastecida por via marítima, enfrentou menos problemas. Diversificação de alternativas se apresenta como caminho mais eficaz

Adriano Villela

Quando implementou o propalado plano de metas - que teve como ponto central a construção de Brasília -, o ex-presidente Juscelino Kubitschek tinha dois grandes gargalos para impulsionar a economia: transportes e energia. O que a greve dos caminhoneiros - que entra nesta segunda-feira (28) em seu oitavo dia - revela de forma contundente é que, passados 60 anos, estas áreas continuam sendo gargalos. JK, e seu exagero de querer crescer 50 anos em cinco via construção da nova capital, tentou sua solução em infraestrutura investindo em energia elétrica e rodovias. Naquela época, fora ferrovias, ele não tinha outras opções. Hoje não.

Nos combustíveis, vimos no Brasil atual um distanciamento imensurável com relação a alcool e biodiesel. Levantamento da Agência Nacional do Petróleo divulgado nesta segunda ressalta que somente nos estados de Mato Grosso, Goiás, Paraná, São Paulo e Minas Gerais  o etanol é vendido a preços competitivos frente a gasolina. Bahia e Pernambuco, históricos celeiros de plantio de cana, não dispõem desta alternativa. O histórico, que fique claro, se refere a quase cinco séculos atrás.

Os estados que iniciaram a atividade econômica brasileira nos canaviais não têm cana - ou usinas - para produzir alcool que vire alternativa à gasolina com preço em alta. A conta é simples. Tendo mais alcool barato e a disseminação de carros flex, a gasolina teria que ser ofertada a custos mais módicos.

Claro que o imbróglio que deu origem ao levante nas estradas se deu com o diesel, que não é substituível pelo etanol. Mas pode ser pelo biodiesel. O desenvolvimento de combustível por meio de mamona, soja e outras oleaginosas começou a ganhar corpo na primeira década deste séculos, mas ficou no caminho. Não recebe investimentos da mesma monta que as grandes hidrelétricas, tipo Belo Monte, Santo Antônio e Jirau.

Na própria área energética, o Brasil só não tem racionamento por causa das termelétricas. Estas, porém, são mais caras. Empreendimentos em energia eólica e solar - que vem tendo desenvolvimento elogiável - não ocupam o mesmo lugar na matriz que os formatos hidrelétrico ou térmico. Mas ao menos reduz a demanda quando é necessário acionar a alternativa mais cara.

Situação semelhante acontece com os transportes. As rodovias são antigas e inadequadas para o transporte de grandes cargas. Já ferrovias abrigam muitos vagões, masexigem investimentos iniciais maiores e são mais longos. Já as hidrovias ficam a meio caminho. É mais barata que o modo por trem, embora transporte volumes menores. Nesta greve dos caminhoneiros, por exemplo, o Amapá teve menos problemas por combustíveis porque é fornecida pela via marítima.

Não vamos reduzir a greve dos caminhoneiros a simplesmente achar que com ferrovias ou hidrovias vamos precisar menos de caminhões. A categoria apenas externou uma insatisfação da população  e de muitas empresas com reajustes praticamente diários. Poderíamos ter paralisações nos outros modais também. Nesta semana, os petroleiros prometem parar também.

Etanol, biodiesel, energia eólica ou solar e hidrovias jamais ocuparão a liderança em seus setores, mas ajudam a resolver lacunas dos outros modais. Como acontece na grandes cidades entre ônibus, táxi, aplicativos, metrô, VLT, BRTs, a integração nos traz soluções muitas vezes esquecidas por escolhas que, apenas aparentemente, são a única maneira possível.

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