OPINIÃO: Remédios para a crise

Em 1990, o diplomata e economista John Kenneth Galbraith publicou o livro "Uma Breve História da Euforia Financeira", onde ele resume a história das crises do sistema capitalista e mostra suas diferenças e semelhanças.

Por Ricardo Villela

Tsunami ou marolinha, tudo leva a crer que o pior da crise já passou. Com a recuperação, ganha cada dia mais força o debate com relação ao futuro. Agora que estamos convencidos que superamos essa fase difícil, o que podemos fazer para evitar novos problemas?

Aprendi quando cursava especialização em Administração que a solução de problemas envolve duas fases igualmente importantes e difíceis: identificar a causa e eliminá-la. Não adianta tomar atitudes rápidas. Começar a tomar medidas concretas antes de saber o que causou o problema costuma ser mais demorado e mais caro. Primeiro se planeja. Depois se executa.

Pesquisando sobre qual seriam as causas da crise do subprime encontrei uma resposta muito interessante. Em 1990, o diplomata e economista John Kenneth Galbraith publicou o livro "Uma Breve História da Euforia Financeira", onde ele resume a história das crises do sistema capitalista e mostra suas diferenças e semelhanças. Apresento agora um resumo da história.

Tudo começou em 1630, na Holanda, quando o comércio de bulbos de tulipas viveu dias eufóricos. A alta dos preços parecia não ter limites. Pessoas ganhavam em poucas semanas o que antes conseguiam em muitos meses. Até que em 1637, todos decidiram vender os bulbos antes que o preço começasse a cair. Virou pó. Em 1711, a história se repete na Inglaterra, onde nasceu a South Sea Company, com o objetivo de vender ações e, com o dinheiro arrecado, comprar títulos da dívida da Inglaterra. A remuneração dos títulos seria repassada aos acionistas. O preço das ações subiu, atraiu o interesse de muita gente e a bola foi crescendo. Em 1720, a certeza do sucesso acabou. O preço das ações começou a cair e todos queriam vender as ações, o que só acelerava a queda.

Um dos mais famosos investidores que faliu com o fim da South Sea foi Sir Issac Newton, que conseguiu calcular a aceleração da gravidade, mas não imaginava quão rápido seu patrimônio poderia ser destruído.

A contribuição norte-americana não começou nem terminou em 1929. Ainda no tempo da colônia, em 1690, o governo local emitiu uma montanha de títulos para pagar despesas de guerra. Quando caiu a ficha e as pessoas se deram conta de que não havia dinheiro para resgatar todos os títulos, foi uma quebradeira geral. Já independente, em 1816, houve algo parecido com a crise atual. Após o fim da guerra com a Inglaterra, iniciada em 1812, o valor dos imóveis subiu. As pessoas procuravam os bancos para obter empréstimos para comprar imóveis que ficariam ainda mais caros. Tudo ia bem até que em 1819 a maré virou. Os preços dos imóveis despencaram, as hipotecas foram executadas, muitas empresas quebraram. Em resumo, algo muito parecido com o que vivemos recentemente.

Outras crises vieram no século XIX até que todos os acontecimentos levaram à maior crise da história do capitalismo, a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. A fase de prosperidade começou em 1924 e foi avançando até a irracionalidade absoluta em 1928. As ações se valorizavam cada vez mais. Quanto mais subiam, mais pessoas resolviam comprar ações, acreditando que ainda havia espaço para novas altas. A pressão compradora adicional gerava nova elevação no preço das ações, recomeçando o ciclo. Até que no final de outubro de 1929 o combustível acabou. Repentinamente muitas pessoas acordaram para o fato de que as ações chegaram a um preço incompatível para a capacidade das empresas de gerarem resultados e começaram a vender os papéis. Tudo começou a vir a baixo até o caos do dia 29, a famosa terça-feira negra.

O último caso tratado por Galbraith, que morreu em 2006, ocorreu em 1987. Foram os junk bonds, que levaram Michael Milken primeiro à fama e depois para a prisão. Se ainda estivesse vivo ele certamente incluiria a crise atual nesta lista. Em todos os casos ele destaca fortes semelhanças. O processo começa com um “gênio” das finanças apresentando um método de ganhar muito dinheiro em pouco tempo, normalmente baseado em forte alavancagem e, em alguns casos, aproveitando a técnica que ganhou fama com Charles Ponzi, conhecida como pirâmide, em que os rendimentos dos aplicadores antigos são pagos não pelo retorno dos negócios, mas pelos recursos de novos aplicadores.  Mas se já aconteceu antes, se o mecanismo é parecido e se tudo leva a crer que vai dar errado, como ainda há tanta gente que acredita? Galbraith encontra a resposta nas vítimas. Segundo ele, a falta de memória e o excesso de ganância das pessoas faz com que o erro se repita várias vezes.

Depois que Galbraith esclareceu a causa o que propor como solução? Penso que não há como evitar que uma nova crise aconteça. Sempre surgirão novas estratégias mirabolantes e sempre existirão pessoas com ganancia suficiente e pouca memória para repetir o erro. O que dá para fazer é isolar o problema nas pessoas que decidiram aplicar seu dinheiro nestas aventuras. É preciso regular e fiscalizar o mercado para evitar o risco sistêmico, ou criar meios que permitam ao mercado resolver seus problemas.

Se a quebra de um banco privado é problema do governo, é direito dele acompanhar a saúde financeira dos bancos para evitar situações em que o governo, ou melhor, a sociedade, tenha que pagar a conta. O mesmo se aplica a fundos de pensão, seguradoras e outras empresas com forte impacto no funcionamento do mercado como um todo. O mercado poderá ter tanta liberdade quanto for sua capacidade de resolver sozinho seus problemas caso algo dê errado.

Texto orignalmente publicado no site www.artigonal.com 29 de dezembro de 2009

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