OPINIÃO : Qvosque Tandem abvtere, Catilina Patientia Nostra?

Não há mais paciência. A conta da crise não pode mais ser cobrada apenas de quem não se beneficiou da fase de bonança

Por Ricardo Villela

A frase acima (até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência, em latim), pronunciada pelo cônsul Cícero contra o senador Lúcio Catilina, conhecido mais por escândalos de corrupção do que por contribuições legislativas, é muito lembrada ao se comentar malfeitos de políticos modernos. Nos dias atuais, me lembro dela ao ver os telejornais falando da crise na Europa.
Após anos de dificuldades com o processo de integração econômica e pressionados pela crise iniciada em 2008, vários países europeus (com destaque para Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e Itália) se viram sem condições de honrar seus compromissos. Ao tentar pedir ajuda aos demais países do bloco e ao FMI, ouviram uma "complementação" da música "Diariamente", de Marisa Monte: para dívida grande, arrocho.
A receita pode funcionar na economia doméstica ou em empresas privadas, mas tem se mostrado desastrosa quando se trata de países. Se um pai de família vende o carro e passa a andar de ônibus, adia as compras de roupas e os consertos em casa e outras medidas para reduzir gastos, seu salário não se altera. A receita constante e as despesas decrescentes podem gerar o superávit necessário para quitar as dívidas e sair do sufoco.
Com os países, a história é outra. A demissão de servidores públicos, a redução de aposentadorias e o adiamento de obras reduzem a atividade econômica, prejudicando a arrecadação. A tentativa de redução de despesas para aliviar o superendividamento precisa ser feita com muito cuidado. Desperdícios devem ser cortados; porém, a escolha do que pode ser economizado e em que proporção deve ser feita pelo próprio país, levando-se em conta suas características peculiares.
Outro ponto importante é resolver o problema atacando a causa. Esses países não estão em situação difícil apenas por conta da indisciplina financeira do seu povo. Não creio sequer que esse seja o motivo principal. Os países, empresários, investidores que ganharam dinheiro com o processo que resultou no quadro atual devem assumir sua cota nos sacrifícios necessários para resolver o problema que eles ajudaram a criar.
A tentativa da União Europeia e do FMI de impor à Grécia um pacote severo de arrocho indiscriminado levou o povo grego às ruas. Ao ver as cenas na televisão, consigo ouvir as pessoas gritando as palavras de Cícero que me servem de título. Não há mais paciência. A conta da crise não pode mais ser cobrada apenas de quem não se beneficiou da fase de bonança. É necessário encontrar outra solução, com distribuição de responsabilidades proporcional ao benefício usufruído por cada um.

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