NOTÍCIA: Comissão da Verdade investiga caso baiano

Parente distante, Jorge Leal foi o primeiro marido de uma amiga da família quando em morava em Aracaju, Tia Ana Neri, citada nesta matéria. Foi o horro da ditadura que acompanhei mais de perto.
Parabens à jornalista  Patrícia pelo belíssimo texto.
Patrícia França

Transcorridos 42 anos de buscas incessantes pelo Corpo de Jorge Leal Gonçalves Pereira, desaparecido nos porões do DOI-Codi do Rio de Janeiro durante a ditadura militar, a família do baiano ligado à Juventude Universitária Católica (JUC) e um dos fundadores da Ação Popular espera colocar um fim à via-crucis para encontrar os restos mortais do engenheiro eletricista, formado na Escola Politécnica da Ufba.

Jorge Leal, que na clandestinidade usava o codinome Hugo, é o primeiro desaparecido político baiano a ter sua história investigada pela recém-instalada Comissão Nacional pela Verdade. O requerimento pela qual a família e o Comitê Baiano pela Verdade (CBV) pedem que o Exército informe o destino do corpo do militante e identifique os envolvidos na sua prisão, tortura e morte foi protocolado, esta semana, no Palácio do Planalto, pelo sociólogo Joviniano Neto, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais na Bahia.

O ex-militante, pai de quatro filhos, é um dos 11 desaparecidos políticos bianaos levantados pelo Grupo Tortura, num universo em que, mesmo sem a abertura de todos os arquivos do período na Bahia, já foram identificados 32 mortos e cerca de 400 vítimas (prisão arbitrária, perseguição funcional, etc) das forças da represssão militar.

Para as irmãs do ex-militante da AP, a arquiteta Lúcia Maria Gonçalves, e a professora aposentada do Instituto de Letras da Ufba, Teresa Leal Gonçalves Pereira, a expectativa, agora, é poder realizar o sonho dos pais falecidos, dona Rosa e o engenheiro Enéas Gonçalves Pereira, de enterrar o único filho. “É uma ferida que não foi cicatrizada”, diz entristecida Teresa.

A irmã Lúcia espera justiça. “Quero que ele seja reabilitado  não tratado como um subversivo terrorista, mas como alguém que foi subversivo para o bem, que queria acabar com a injustiça social por amor à humanindade”.

O sociólogo Joviniano Neto desta que o caso de Jorge Leal chama atenção pelo simbolismo que representa. “Ele foi preso, torturado, morto e depois  absolvido no processo em que estava sendo investigado. Moreeu sem direito à defesa, sem direito a um túmulo, por uma casua que seria reconhecido inocente”, denuncia.

O processo entregue à Comissão Nacional da Verdade pelo CBV, segundo Joviniano, já reconstituiu grande parte do trabalho investigativo sobre este caso. Mas assinala que caberá a ela buscar as respostas para algumas lacunas: quem integrava a equipe do DOI-Codi responsável pela prisão, documentos que comprovam a operação, e, o principal, o que foi feito com o corpo de Jorge Leal.

ARAGUAIA

O próximo requerimento a ser entregue pelo CBV à Comissão Nacional pela Verdade, disse Jovininao, deverá ser sobre o caso Dinaelza Santana Coqueiro, a Dina, e o seu marido , Vandick Reidner Pereira Coqueiro, desaparecidos na Guerrilha do Araguaia.

Dina é Irma de Diva Santana,  vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais e integrante da Comissão de Mortos e Desaparecidos da Presidência, que viu os pais, dona  Junilla e seu Antônio, morrerem sem esclarecer a morte da filha e do genro e poder honrar seus restos mortais.

Ex-comunista confirma que Jorge foi preso e torturado pelo Exército

Arrolada no processo que pretende identificar as circunstâncias da morte de Jorge Leal Gonçalves Pereria, sequestrado na Rua Conde do Bonfim, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, a socióloga Cecília, uma das fundadoras do Grupo Tortura Nunca Mais naquele Estado, assegura que o ex-militante baiano foi levado por agentes do DOI-Codi para o Batalhão de Polícia do Exército, onde ela também esteve presa.

“Eu viJorge sendo carregado por dois soldados para a sala de tortura, quando eu estava saindo dela. Eu não o conhecia, mas vi que ele estada muito machucado, muito ferido”, relembrou a ex-militante do Partico Comunista Brasileiro (PCB).

Cecília Coimbra, que também será testemunha no processo contra o Estado que a ex-mulher de Jorge e os quatro filhos moverão no Rio de Janeiro, disse ao ATARDE que ficou “muito impressionada”  com o estado do baiano, consquencia dos interrogatórios, quase sempre seguidos de tortura. “Ele estava sob a guarda do Estado e foi preso e torturado”, denuncia ela.

O ex-militante comunista, Marcos Antônio de Melo, também confirmou a prisão de Jorge no DOI-Coid. Mas o I Exército negou, em 1971, que ele tivesse estado preso em qualquer das dependências daquela força militar.

Em 1996, a Comissão de Mortos e Desaparecidos, com base em relatos e alguns poucos documentos, terminou por expedir a certidão de óbito de Jorge Leal, na qual não constam a data, o local e causa da morte, nem o lugar onde o corpo foi enterrado.

Renunciou a  carreira para servir à classe operária

A frase “morro feliz porque sei que o pobre sobre mais do que eu”, escrita na parede da cela com o próprio sangue,  após as sessões de tortura, traduz de forma dramática o propóisto da causa que levaram Jorge Lea  a abrir mão de uma carreira promissora na Petrobras e na Coelba, para se juntar a camponeses, na Bahia, e a operários, no Rio de Janeiro, em prol de uma sociedade mais igualitária.

Mas o seu sequestro em 20 de outubro de 1970 por agentes da repressão, na flor dos seus 32 anos, iria alterar definitivamente os planos do militante baiano. Quatro décadas depois, a lembrança daquele triste dia ainda abala a irmã Lúcia.

“Eu estava numa transversal do centro do Rio. Combinamos de nos encontrar no final do expediente, entre 17h15 e 17h30. Fiquei ali, próximo a um poste (de luz) até mais de oito horas da noite. No dia seguinte a esposa dele (a professora Ana Neri Fontes Rabello) aparece cedinho no meu trabalho apavorada, dizendo que meu irmão não tinha aparecido em casa. Eles tinham combinado que, tivesse a reunião que fosse, sempre ele dormiria em casa. Naquele momento, não tivemos mais dúvidas de que algo havia acontecido”.

Começava ali a busca incansável pelo militante.                   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESTADO: Empresários italianos conhecem oportunidades de negócios no Nordeste

AGENDA BAHIA: Soluções para cidades sustentáveis é tema de fórum

OMC: País deve recorrer de decisão contra subsídio