CULTURA:Curiosidades do Brasil e do mundo na Segunda Guerra
É farta a literatura sobre as grandes guerras do Século XX. A riqueza do trabalho de Roberto Muylaert está justamente nos detalhes que busca acentuar. Uma delas é a decisão de Vargas de viajar ao Rio Grande do Norte de véspera
Adriano Villela *
Quem gosta de história terá uma interessante fonte de estudo em 1943 Roosevelt e Vargas em Natal, de Roberto Muylaert. A partir de um fato aparentemente sem sentido – a viagem do dirigente máximo de um dos países-chave da Segunda Grande Guerra, que atravessou o minado Oceano Atlântico – para detalhar pequenos fatos cruciais do conflito bélico, do Brasil, da família do ditador brasileiro e da história de vida de Roosevelt, como o seu engraçado costume de se referir ao presidente francês, Charles de Gaulle, como Joana Darck.
Com 185 páginas, é um livro reportagem que se aventura no cotidiano dos momentos chave do período, procurando fazer conexões de causa e consequência de cada acontecimento. Ocorrido a 28 de janeiro de 1943, o encontro de cúpula era inusitado por reunir o gestor da então chamada maior democracia do mundo, os Estados Unidos, com um Getúlio Vargas nos anos mais duros de seu governo de exceção, o Estado Novo (1937-1945).
Ainda mais insuspeito em razão de Vargas ter atravessado boa parte do conflito militar hesitando entre apoiar os países do Eixo (Japão, Itália e Alemanha) ou os Aliados (Estados Unidos, França e Inglaterra, com alguma participação da Russia). Parte importante da campanha pró-aliados - no final bem-sucedida - veio do embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Osvaldo Aranha, como é relatado no livro 1943.
A Conferência de Potengi – como também foi chamado o encontro de estado top secret no Brasil – ficou mundialmente marcada por um passeio de jipe entre dos dois presidentes que, paradoxalmente, pouca atenção chamou à época. Até hoje, a cada 28 de janeiro os natalenses comemoram a efeméride que colocou o estado nordestino no tabuleiro da guerra contra as tropas do ditador Hitler.
Para construir este relato, o autor pesquisou o Arquivo Nacional, Arquivo da Marinha, Centro de Pesquisa e Documentação da FGV, Fundação Rampa, Instituto Cultural da Aeronáutica, Museu Aeroespacial (todos no Brasil), Livraria Franklin Delano Roosevelt, Livraria do Congresso dos EUA, jornais e revistas dos dois países e livros publicados sobre o período.
“O livro de Roberto Muylaert vem em boa hora e merece longa vida. Traz informações que permitirão entender a concepção de uma nova reorganização do mundo atual que está sendo engendrada a cada crise ou bolha financeira dessa primeira década do Século XXI”, afirmou o editor da Revista Imprensa, Sinval de Itacarambi Leão, que prefacia a obra. “Entender como o Brasil foi protagonista dessa matriz mutante, na época da reportagem relatada no livro, ajuda a nos posicionar”.
O escritor é jornalista de formação, começando a carreira na Editora Abril, em 1964. Três anos depois fundou a revista Exame, uma das publicações mais respeitadas no jornalismo de Economia. Foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e escreveu outros seis livros.
É farta a literatura sobre as grandes guerras do Século XX. A riqueza do trabalho de Roberto Muylaert está justamente nos detalhes que busca acentuar. Uma delas é a decisão de Vargas de viajar ao Rio Grande do Norte de véspera – chegando antes preservava a condição de anfitrião, “dono do pedaço” onde se negociaria medidas estratégicas – e o compromisso do governo americano de não levar soldado negro.
Chegaram junto com Roosevelt - mais citado nos livros de história como autor e líder na implantação do New Deal, que tirou os Estados Unidos da crise da Bolsa de 1929 – cerca de 5 mil militares, um oitavo dos 40 mil habitantes que totalizava a população de Natal à época. Muylaert defende no livro que a cessão da base e sua compensação – o fornecimento dos equipamentos da Companhia de Siderurgia Nacional (CSN), então em fase de projeto – já estavam decididos.
“Mas a ideia central do encontro era a de enviar pracinhas brasileiros para combater na Europa, uma forma de o país ir além do apoio de infraestrutura, matérias-primas, e suporte diplomático. Só faltava o chamado “sacrifício de sangue””. Outro tema à mesa teria sido uma possível inclusão do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, pleito até hoje acalentado pelo nosso país.
*Adaptado de resenha do mesmo autor, produzido para o jornal Tribuna da Bahia e publicado à página 21.
Adriano Villela *
Quem gosta de história terá uma interessante fonte de estudo em 1943 Roosevelt e Vargas em Natal, de Roberto Muylaert. A partir de um fato aparentemente sem sentido – a viagem do dirigente máximo de um dos países-chave da Segunda Grande Guerra, que atravessou o minado Oceano Atlântico – para detalhar pequenos fatos cruciais do conflito bélico, do Brasil, da família do ditador brasileiro e da história de vida de Roosevelt, como o seu engraçado costume de se referir ao presidente francês, Charles de Gaulle, como Joana Darck.
Com 185 páginas, é um livro reportagem que se aventura no cotidiano dos momentos chave do período, procurando fazer conexões de causa e consequência de cada acontecimento. Ocorrido a 28 de janeiro de 1943, o encontro de cúpula era inusitado por reunir o gestor da então chamada maior democracia do mundo, os Estados Unidos, com um Getúlio Vargas nos anos mais duros de seu governo de exceção, o Estado Novo (1937-1945).
Ainda mais insuspeito em razão de Vargas ter atravessado boa parte do conflito militar hesitando entre apoiar os países do Eixo (Japão, Itália e Alemanha) ou os Aliados (Estados Unidos, França e Inglaterra, com alguma participação da Russia). Parte importante da campanha pró-aliados - no final bem-sucedida - veio do embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Osvaldo Aranha, como é relatado no livro 1943.
A Conferência de Potengi – como também foi chamado o encontro de estado top secret no Brasil – ficou mundialmente marcada por um passeio de jipe entre dos dois presidentes que, paradoxalmente, pouca atenção chamou à época. Até hoje, a cada 28 de janeiro os natalenses comemoram a efeméride que colocou o estado nordestino no tabuleiro da guerra contra as tropas do ditador Hitler.
Para construir este relato, o autor pesquisou o Arquivo Nacional, Arquivo da Marinha, Centro de Pesquisa e Documentação da FGV, Fundação Rampa, Instituto Cultural da Aeronáutica, Museu Aeroespacial (todos no Brasil), Livraria Franklin Delano Roosevelt, Livraria do Congresso dos EUA, jornais e revistas dos dois países e livros publicados sobre o período.
“O livro de Roberto Muylaert vem em boa hora e merece longa vida. Traz informações que permitirão entender a concepção de uma nova reorganização do mundo atual que está sendo engendrada a cada crise ou bolha financeira dessa primeira década do Século XXI”, afirmou o editor da Revista Imprensa, Sinval de Itacarambi Leão, que prefacia a obra. “Entender como o Brasil foi protagonista dessa matriz mutante, na época da reportagem relatada no livro, ajuda a nos posicionar”.
O escritor é jornalista de formação, começando a carreira na Editora Abril, em 1964. Três anos depois fundou a revista Exame, uma das publicações mais respeitadas no jornalismo de Economia. Foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e escreveu outros seis livros.
É farta a literatura sobre as grandes guerras do Século XX. A riqueza do trabalho de Roberto Muylaert está justamente nos detalhes que busca acentuar. Uma delas é a decisão de Vargas de viajar ao Rio Grande do Norte de véspera – chegando antes preservava a condição de anfitrião, “dono do pedaço” onde se negociaria medidas estratégicas – e o compromisso do governo americano de não levar soldado negro.
Chegaram junto com Roosevelt - mais citado nos livros de história como autor e líder na implantação do New Deal, que tirou os Estados Unidos da crise da Bolsa de 1929 – cerca de 5 mil militares, um oitavo dos 40 mil habitantes que totalizava a população de Natal à época. Muylaert defende no livro que a cessão da base e sua compensação – o fornecimento dos equipamentos da Companhia de Siderurgia Nacional (CSN), então em fase de projeto – já estavam decididos.
“Mas a ideia central do encontro era a de enviar pracinhas brasileiros para combater na Europa, uma forma de o país ir além do apoio de infraestrutura, matérias-primas, e suporte diplomático. Só faltava o chamado “sacrifício de sangue””. Outro tema à mesa teria sido uma possível inclusão do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, pleito até hoje acalentado pelo nosso país.
*Adaptado de resenha do mesmo autor, produzido para o jornal Tribuna da Bahia e publicado à página 21.
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