RESENHA: Do virtual ao real

O músico iniciou a carreira literária em 2008, em livro sobre sua paixão futebolista - Meu Pequeno Gremista (2008). No ano seguinte, o vocalista publicou a obra sobre a banda que o projetou em Pra Ser Sincero (2009) e, no ano passado, lançou  Mapas do Acaso (2011).

Adriano Villela


 O filósofo da informação e sociólogo Pierre Lévy já afirmava, ao final da última década do século XX que a internet comportava toda a extensa gama de tipos de personalidades da sociedade.Mesmo assim e com o avanço dos recursos virtuais no mundo de hoje, o ídolo rock dos anos 80, Humberto Gessinger conseguiu inovar: transpôs da web para um formato físico os posts do blog BloGessinger.blogspot, lançando neste semestre a obra Nas Entrelinhas do Horizonte, pelo selo Belas Letras.

“(as ferramentas da internet) são fundamentais.Mas não penso nelas como ferramentas. Agora, elas também são a vida. Como uma conversa casual com o motorista do táxi. Eu publico no BloGessinger exatamente no limbo da segunda para a terça. 24h ou zero hora? Meia-noite... Me fascina o que há de humano atrás destas tecnologias”, disse o músico e escritor, no site da livraria Saraiva. 

Gaúcho de Porto Alegre, Humberto Gessinger é vocalista da banda Engenheiros do Hawaii, uma das principais da cena rocker dos anos 80.  O grupo compôs músicas como Somos quem podemos ser, Pra ser Sincero, O Papa é Pop, Infinita Highway e Era um garoto que como eu amava os Beattles e os Rolling Stones. O músico iniciou a carreira literária em 2008, em livro sobre sua paixão futebolista - Meu Pequeno Gremista (2008). No ano seguinte, o vocalista publicou a obra sobre a banda que o projetou em Pra Ser Sincero (2009) e, no ano passado, lançou  Mapas do Acaso (2011).

Em Nas Entrelinhas do Horizonte (trecho da música Infinita Highway), Gessinger escreve um testemunho sobre o que pensa da vida, agora, aos 48 anos, com reflexões sobre assuntos diversos, tais como Política, Internet, rituais, viagens, vida de celebridade – e uma certa resistência dele à rotina da fama -, além  da famosa cabeleira loura, a qual o cantor quase literalmente fazia dançar durante os shows.

No livro, porém, revela uma insatisfação. “As razões estéticas nunca me convenceram. A praticidade, sim. Até então eu pensava que todo mundo podia ficar alguns dias sem se pentear”, graceja. O quarto título do vocalista da ‘EngHaw’ já está em 12º lugar na lista de não ficção da Veja (entre 28/05 e 06/06). Já no PublishNews (de 28/05 a 03/06), o livro ocupa a 18ª posição. A escrita de Gessinger segue algumas tendências do músico, com sarcasmo, inteligência e vários fragmentos da visão do autor sobre o mundo.

“Em tempos e lugares onde todas as questões parecem ter apenas dois lados (certo/errado, bom/ruim, bem/mal) pode ser um bom sinal desagradar os dois lados”.  São 156 páginas, em 36 capítulos, traz sempre comentários intercalados com poesias. “Todo dia a gente inventa e fantasia/A gente esquenta a água fria/E ignora a bola fora”, escreveu, em um das experimentações poéticas.

O estilo é também influenciado pela internet, embora os artigos tenham sido reescritos. Os capítulos não contam com texto corrido, mas uma série de notas marcadas por asterisco ou a interjeição gaúcha BAH. No blog, ele tem o costume de publicar os posts de segunda para terça-feira. Gessinger não fala diretamente sobre música neste livro, mas também a temática não escapa de todo, contando alguns bastidores do grupo. “Pasárgada não é um reino/São as teclas do piano/São as cordas do Violão/Lá sou amigo dos reis/Do Iê Iê Iê e do baião”, escreve, em outra experimentação poética, numa alusão a conhecida poesia de Manuel Bandeira.

Matéria produzida originalmente para o jornal Tribuna da Bahia, publicada na edição de 21 de junho, página 21.

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