Anos de chumbo e superação

Segundo Lula, a ativista política “em décadas de militância comunista na Europa e no Brasil, nunca permitiu que os ideais revolucionários anulassem sua visão crítica, de militante e de mulher"

Adriano Villela*

Imagine o que é enfrentar os horrores das ditaduras da América Latina e das grandes guerras travadas na Europa, sendo mulher e vivendo no período anterior à revolução feminista dos anos 60 e décadas seguintes. Esta é a história da militante franco-brasileira contada na obra Renée France de Carvalho -Uma vida de lutas, lançada em Salvador  no último dia 9, pela editora Fundação Perseu Abramo.  Baseado em entrevistas da biografada, o livro de 234 páginas,  é organizado pela historiadora Marly Viana, René Louis - filho de Renée France – e  o economista Ramón Peña Castro.

Nascida em Marselhe, na França, em 1925, a militante começou a atividade partidária nos anos 30, quando contava apenas 11 anos,  nas proximidades da Segunda Guerra, por meio da Frente Popular francesa. No Governo de Vichy – sede do poder nazista em território francês durante a segunda grande guerra – teve irmã, tia e pai presos.

Mudou para o Brasil em 1948, já casada com o líder do Partido Comunista Brasileiro (PCB, antigo Partidão), Apolônio de Carvalho. Em 1970, acompanhou o marido, René Louis e o segundo filho, Raul, serem presos e torturados pela ditadura militar brasileira. “Sem acréscimos ou subtrações, estou abrindo a minha vida e fiquei satisfeita com o resultado”, afirmou a biografada ao site Vermelho, ligado à militância comunista atual.
 
Uma Vida de Lutas é prefaciado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, amigo pessoal  do casal Apolônio e Renée France de Carvalho. Segundo o ex-gestor, a ativista política “em décadas de militância comunista na Europa e no Brasil, nunca permitiu que os ideais revolucionários anulassem sua visão crítica, de militante e de mulher. Fala da angústia que sentia entre a necessária disciplina partidária e os questionamentos que não queriam calar. Pacto entre Stalin e Hitler? Ocupação da Hungria pela União Soviética em 1956?”.
 
Escrita em primeira pessoa, a obra mostra esta perspectiva crítica na maior parte dos seus trechos. Renée France questiona o papel destinado à mulher pelos líderes do partido, a exclusão de Apolônio de Carvalho de postos de comando – mesmo sendo, assim como a esposa, um quadro com experiência na resistência política clandestina na Europa e no Brasil. “Não estava segura, sentia-me limitada diante deles. Havia aquela ânsia de servir, de fazer sacrifícios se fosse o caso, e aceitávamos, entrávamos no jogo”, afirma ela no livro.“É verdade que criticar uma revolução (comunista) era fácil, fazer era diferente. Penso que não devemos, no entanto, fechar os olhos e os ouvidos para os que criticam”.
 
 A biografia de Renée France oferece um interessante depoimento sobre o final da Primeira Guerra (1914-1919), a França dos anos 30, o movimento comunista nos dois países, o Brasil dos anos 50 e a Ditadura Militar. Os organizadores tiveram uma decisiva iniciativa ao descrever nas notas de rodapé uma síntese sobre personagens e momentos citados pela militante. A militante revela em vários trechos uma frustração com relação a postura do PCB no período pré-golpe militar e nos primeiros dias que o sucedeu.

“Como (Luiz Carlos) Prestes confiava totalmente no dispositivo militar do governo (de João Goulart, deposto em 1964), a orientação era de que não era preciso fazer quase nada, e sim nos concentrarmos mais no papel da crítica”. O livro tem linguagem simples, coloquial, mas exige conhecimento de história acima do elementar.

Resenha produzida para o jornal Tribuna da Bahia, publicada na edição de 18 de julho.

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